PÁSSARO

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há um vão
dentro de mim
que não me cabe
onde passam todos os pássaros
do tempo

vão
de janela
de uma palavra descabida
qualquer.
casa.
cerca.
poema.

vão de Maria
de Teresa.

onde andorinhas voam
palavras
e pousam em igrejinhas
desenhadas
nas portas.

a palavra
pousa
no vão do dia.

no vão noturno
dentro de mim
onde brota uma estrela
que nunca se põe ao fim da tarde
vão da memória

de latas incabíveis
rodando como rodas de carro
na rua
rodas de crianças
brincando.

outro dia me disseram
que enxergo poesia onde não existe
onde enxergo não existe totalmente

eu disse
meio vão
e voei
entre os galhos
ocos
outros da vida.

Cícero Almeida

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INSTANTÂNEOS DAS ALTERIDADES: A CRIAÇÃO DA PERSONA POÉTICA DE CÍCERO ALMEIDA

Cícero Almeida

Foto by Djania Beserra

MÁQUINA DE INVENTAR INSTANTES constitui um belo rol de poemas de Cícero Almeida, cuja forma e conteúdo tenho o gáudio de prefaciar. O título de per se resume os poemas, ainda que diferentes em abordagem dos instantes, mas estes são a tônica. Os poemas focam por diferentes jaezes momentos sem perspectiva de eternidade nem de imortalidade. Eles são de cunho lírico, expressam a subjetividade, não porém a subjetividade ousada que aprisiona instantes nas cadeias do ser desossado e descarnado, exangue, tal qual Parmênides idealizou na forma do pensamento ultra-abstrato. Os poemas prendem-se ao sensível, ao vir a ser, tal qual imaginara a suposta tradição ligada a Heráclito. O que asseveramos tem base no que afirma o poeta antes dos poemas: “Sinto-me nascido a cada momento/ Para a eterna novidade do Mundo” (Alberto Caeiro); “Eu não tenho filosofia; tenho sentidos” (Alberto Caeiro). A base da poemática do poeta é o sensível, a percepção, sendo o pensamento considerado mero criador de inúteis abstrações, que levam o homem à Metafísica, a propor-se alvos que ele próprio não pode atingir: Deus, Alma, Espírito, Eternidade etc, como bem notara Kant em sua Crítica da Razão Pura. Por isto, em sua totalidade, os poemas são máquinas de inventar instantes. Estas premissas são nosso leitmotiv para analisar os líricos poemas de Cícero Almeida. Impossibilitado de analisar cada poema em pormenor e a totalidade deles, deter-nos-emos num ou noutro que nos chamar a atenção.

Ainda nesta longa controvérsia ser x movimento, ter-se-ia de citar Hegel, com sua famosa tríade TESE/ ANTÍTESE/ SÍNTESE. Para nós, sem grandes delongas, foi a maior ilusão teórica já criada, otimista, mãe do marxismo, mas, paralisada aparentemente sob o Estado se esbroa. O devir fica como que APARENTEMENTE emperrado, platônico, amordaçado. Delineiam-se devires que fogem do alcance humano. Livre ou solto, podem resultar barbáries, não necessariamente boas superações. Não se planifica o devir ou nada sob sua chancela, planejam-se eventos, muda-se o devir, mas ele ocorre. Grande pretensão foi a de o homem planear um evento tendo as bênçãos do oráculo de Delfos. “Homero pede que dos deuses se faça cessar a guerra. Ele não entende que está pedindo o próprio fim do Universo”, afirma Heráclito. Passemos agora ao livro de Cícero Almeida dado ser ele o foco desta apresentação.

Foto do livro 1

O livro começa com o poema GÊNESE, mas não é o relato bíblico clássico, mesmo por que a palavra é deus, não Deus. Um deus louco por formas, ávido delas, intranquilo, à procura de palavras, como Drummond em seu poema, melhor metapoema, À PROCURA DA POESIA. Lembremos aqui a divisão poema/poesia. Poesia é conteúdo, que só se realiza no poema, a forma. Interessante é que deus se manifesta no poeta, imanentemente, está nele e com ele em busca de arranjo de formas que deem sentido ao caos das coisas. Ao final: “que haja luz/ um segundo se fez sombra/ e nasceu a poesia”. Claro, que, sob a égide dos opostos, luz e sombra, e claro, para engendrar poema. LUZ pura é o SER. Bem diferente é a oposição traçada por Cícero Almeida de um poema de Olavo Bilac, O TEAR, em que o demiurgo, cansado do eterno retorno dos opostos na máquina, em que “passa e repassa a aborrecida trama/ nas mãos do tecelão indiferente”. Trata-se, pois, de um deus fadigado, sem vida e sem inspiração, pois a matéria-prima dos seus poemas, metaforizados no mundo de ordem a priori não tem mais poder de inspiração. Já se vê que Cícero Almeida não traz Deus à baila, pois Ele é metafísico e além da percepção. É um deus interno, partícipe do “ser” do poeta, do seu “logos”. GÊNESE é, pois, a criação poética a partir do caos do mundo, que precisa ser ordenada. O mister do poeta é o de um tecelão ativo, à procura da poesia e do poema.

HOMEM, PALAVRA e GUARDADOR DE SILÊNCIOS parecem-nos poemas eivados de certa impotência poética. O primeiro decanta o movimento. O tempo tudo encarcera, apesar de o poeta ser criador de sentidos, mas nem tudo pode ser criado, lapidado, pois, como ele assevera, são muitas as lápides. Para trás e para a frente, muita coisa fica, não há muito tempo para poetizar, pois, como diz o primeiro poema citado: “já sei que no fim/ é um único poema escrito/ palavra que não retorna à língua”.

Para nós, veladamente se metaforiza a morte, que, como bem diz algures Umberto Eco, é o fim de todos os signos, deste conjunto deles que perfila semiose. Muito ficou e muito permanecerá, como põe o excerto belíssimo abaixo de HOMEM, solitário em meio à selva de pedras, curtidas em aparente concretude e estabilidade em contraste com a matéria em movimento inapreensível:

(…) são tantas [estradas] por onde passei
os pés não deixam esquecer.
tudo vira saudade
nesta terra de ninguém
a gente que se vire
entre os prédios
é isto.

Saindo da parede

Observemos a sensorialidade presente nas palavras passei, pés (metonimizando, a parte pelo todo em vez de eu e antropomorfizando, ganhando dimensão humana, pois eles “não deixam esquecer”).

PALAVRA tece uma dialética de contrários: criação ou dizer a verdade? Quer-se a verdade? Todavia:

quer na verdade, se dizer amor.
então
pairar-se no ar em rodopio
e, dissipar-se
louca, imensa, simples.

Belas palavras, mas não senão significante de pensamentos confusos, con-fusos de formas que não tomam formas, são puros sentidos, vórtices ao mesmo tempo simples e imensos, dissipáveis, as INANIA VERBA, “palavras inertes”, de Olavo Bilac, que ficam retidas na garganta ou na mente. Não esqueçamos que, na linha de Peirce, os pensamentos são eles mesmos sígnicos. Isto já fora dito por Guilherme de Ockham, que diz não haver universal, só há seres particulares, sendo o universal um ente puramente mental. Daí a famosa frase nominalista: entia non multiplicanda praeter necessaria [os entes não devem ser multiplicados além do necessário]. Os pensamentos não são, todavia, as coisas. O que existe são nomes, afirma o famoso filósofo medieval em franca posição antiaristotélica.

O GUARDADOR DE SILÊNCIOS aborda a palavra muda que o poeta guarda consigo e não significa, não se torna semiótica, dada a finitude do “ser” do poeta. Apenas uma condição se impõe: “salvarei deste mundo/ o que couber/ na muda”. Afinal, como é bem posto: “palavra é coisa de esconder”, pois as mudanças infligidas pelo tempo são diversas.

MENTIRA é outro poema com um belo oximoro: “a mente/ mente só,/ verdade/ entre tantos instantes”. Na senda de Giordano Bruno, a mente é a mãe da História e do nosso ver: “porque os frutos da mente não procedem de outro lugar senão da própria mente”, disse o maior filósofo do Renascimento, o que é acolhido elipticamente no poema de Cícero Almeida. A mente, por mais que nos esforcemos, enxerga a estabilidade, olvida o fluxo das coisas e o estar do homem nelas e elas nele. O primeiro clarão ou primeiridade dá lugar a secundidades e terceiridades para nos valermos de Peirce. Uma espécie de qualissigno inicial, que não é a verdade, mas algo mais inefável que o discurso morre. Por isto, a verdade não pode aspirar senão a inefáveis instantes. No momento em que a palavra é proferida, parece haver a verdade, PARECE; reiteramos, pois, SER É PARECER. Depois a verdade dá-se como suposta, é a grande ilusão do latim i-lu-são “brincadeira”, ligada ao adjetivo lúdico.

Todos estes poemas e outros exordiais foram mencionados por serem liminares, isto é, anunciam internamente o conteúdo dos poemas. A lógica é a mesma: o homem sujeito ao movimento e ao “absolutamente múltiplo/ relativamente uno” (SER). Neste poema, há como que um desapontamento em flagrar a multiplicidade, pois, como diz: “mas tudo que vejo,/ são linhas horizontais/ tais como meus desejos”. Interessante o adjetivo horizontais, pois delimita horizonte, uma dimensão do ser. O adjetivo se opõe a verticais, que, em outros poemas, sempre aparece com axiologia positiva de profundidade de incomensurabilidade. O poeta há de contentar-se com o fato de ser o real apenas o movimento, embora seja só o repouso perceptível.

O relativamente uno é decorrência de autopercepção do todo corpóreo como o mesmo, apesar da absoluta multiplicidade: ilusão de Maya, na esteia budista.

DOGMA, de forte matiz schopenhaueriano, já que tem fundamento na Dor, reforça nosso ponto de vista. O ser do poeta é puro movimento, é autoinvenção, cacos, desunidade no caos primevo, sendo a forma um derivado da atividade do pensar abstrato. Vejamos estas passagens:

“sou o que ainda vem,
o que me invento.
quando na dor,
apanho meus cacos no caos.

Continua:

dizer outra coisa.
— dizer o quê?
não sou um dogma.”

Não há mesmo nada a dizer. Só dogmas se dizem e se perperpetuam. Bom lembrar que dogma vem da mesma raiz de doxa, opinião: dogsa> doxa. Dogma é algo fixo.

POÉTICA DE UM DEVANEIO é um contraste entre um ontem de romantismos e um hoje de realismo ockhamaniano, de particulares e singulares. Na retrospectividade das 2 primeiras estrofes, era um criador de fantasias, de coisas oníricas, idealizadas, e, deixando-se levar pelo sonho, ignorando a vigília do poetar, diz ele: “me vesti de céu/ arranquei deuses de tronos/ perdi a cabeça”. “Perdi a cabeça”, assim avalia ele seu estado poético deste tempo de onipotência romântica e poética. Afinal, o pensar tudo pode, o sonhar tudo abarca sem lindes. Somos então o SER a nossa imagem e semelhança, somos eons, elohim.

Na prospectividade, no amadurecer poético, que indica uma mudança de estado ou incoatividade, as coisas mudam de figura. Prefere o perceptual, a mudança sob o signo de borboletas nas noites, estrelas. Aqui instaura-se mormente o visual, que apreende movimentos e brilhos. Admite ter sido “poeira/ pão e átomo/ nalgum momento”. No poetar hodierno, pergunta-se sobre o ontem para que sobrevenha a peremptória negação

quimeras?
que nada.
descobri a verdade
inventando.

APOGRAFIA plasma de forma brilhante o nojo ao rotineiro. O poeta diz trocar diversas vezes a mesma roupa “num misto de desejo e fúria”, como que desejasse ver sob a mesmidade o detalhe que dá a lúmen a diversidade. Abomina horários, relógios, a manhã, enfastiado do taedium vitae. Enfastia-se das vitrinas, que é um monte de luxo, um monte de lixo (veja-se a paranomásia), um monte de luto. Encara seu corpo como fora da linha de reprodução. Recusa-se a ser o mesmo de si, a ipseidade, uma forma lógica idêntica a si mesmo. Quer sentir-se múltiplo, mas a rotina da mesmidade prossegue premente, à revelia, “a semana inteira,/ um mês inteiro/ o ano inteiro/ uma vida” Apesar disto, sobra tempo “para poder sorrir”. Poema emblemático do texto, sob a marca do “Senhor de Delfos”, buscando o que Heráclito chamava a tensão entre o arco e a lira, em meio a um quotidiano moderno e sem graça, incolor.

POEMINÚSCULO é de natureza cósmica, um poema sobre os homens como “poeira estelar” numa condição subalterna de partícula do imenso cosmo, incógnito, já que se acha a milhões de anos-luz de algum lugar”. Interessante destacar os numerais indefinidos: milhões de e algum. O ser humano aqui é visto como ser fenomênico, um ente de relações, pior, de relações que ele próprio desconhece. Evoca-nos Pascal, que, embora cristão e crente em Deus, afirma: “a solidão destes espaços infinitos me apavora”. O mesmo filósofo em Pensamentos afirma: “Eu não sei o que é o mundo nem o que o é o mundo nem quem sou eu mesmo. Vivo numa ignorância terrível de todas as coisas”. Mesmo sob Ontologia existencial, o ser do homem é múltiplo, pois esta Ontologia é instável (Kirkegaard nunca pensou numa Ontologia, isto é de Heidegger; para o filósofo dinamarquês, cada existência é uma existência). O que Pascal diz em jargão filosófico, nosso poeta diz em linguagem poética. O bom poema é na verdade: boa filosofia, assim pensamos, mas sob outro modo de ser. Afinal “a poesia/ é o escapar no lance/ do limite” (EXTRAMUROS). E o poeta, na senda de Nietzsche e Heráclito, exorta sempre o movimento e o tempo ambos amigos inseparáveis. E neste viés mundano, no sentido que lhe dá Merleau-Ponty, relativo ao mundo do fenômeno, é explícito: “eu sei,/ não me canso na certeza./ eu morrerei em movimento” (ATÉ O FIM).

Digno de menção é O HOMEM TORTO, dedicado a Mário Gomes, que, em dado momento, “bebeu seus goles”. Eis o resultado da criação poética, desta poemogênese e conjugada brilhantemente a uma poesiogênese:

mas, sempre leve, leve… [aposiopese para indicar repetição
do adjetivo]
para além das pernas
com as pernas bambas no mundo,
dança.
para além dos muros
Segue invisível
voa
um homem envergado.

homem envergado

Por que voa? Por que está despojado do pensar, da razão, “o sertão do ser”, como afirma o poeta, em A PÉTALA RUDE, poema de loas aos sentidos, à Natureza e as suas qualidades perceptuais, que dão ao ente, motivos para conferir fenomenicamente sentido às coisas, como pusera Husserl. É pretexto na verdade para uma ode à palavra “nas pedras”, pesada “antes de o sol se pôr”. Palavra cheia, rara, com gume, que rasga o peito do poeta, nele deixando uma brecha. Bela passagem é esta: “dura é a palavra/ que me impõe/ feito um nada feito/ em vento”. O verbo criador também goza de aspereza, mas fugaz, como flash “feito um nada feito”, como bem-posto nesta instantaneidade expressa por uma preposição e um particípio homônimos, “feito”, carreando um efeito de oximoro. O título do poema nasce de um primeiro momento terno e meigo: “há dias e dias/ às vezes se diz numa flor/ na pele”. Daí nasce o que Peirce chama uma cadeia de interpretantes ou signos de signos em cadeia quientessenciada, desta flor-palavra ou, como quiser, uma palavra-flor, no type signo-objeto, sendo type o tipo geral para o que chamamos tokens ou ocorrências específicas, mas de palavras-objeto de outra natureza. Desta candidez, vem a rudeza, a rudeza necessária para fazer-se sentir, deixar brechas e marcas. Há que assinalar-se o belo fecho: às vezes um pássaro sedento/ perdido/ eu vou/ passante” e, em seguida, “às vezes/ eu também tenho sede/ – razão é o sertão do ser”. Simplesmente primoroso. Sobrevêm estados, como “penso”, “tenho sede”. Momentos de sentimentos estativos, não evolutivos, em processo? Cremos que sim. Sobrevém o pensamento.

Não seria despropositado citar o poema SIGNO-OBJETO, que invoca o suprarreferenciado: “o teu corpo é um monte/ um signo/ um nome/ que o meu/ este bocado de bocas/ chama”. Mais umavez a palavra-objeto, como se o signo da coisa fosse a sua representação sensorial, tangível, não apenas o audível. Peirce outra vez é-nos evocado.

Até o amor é visto como inquietação, intranquilidade, como sensorialidade, como um dar-se corporal, como se vê em AMAR ELA É SER. Cada momento é um momento com a amada sob os afagos dela: “em ti renasço e tudo é manhã”. Tudo é manhã por causa dela, não por causa de meros fenômenos naturais. Não os desprezamos, pois são parte do texto, mas preferimos, em termos de Gestalt, tratá-los como fundo para o renascer dos afagos da amada, que é forma, e deles, claro. Tudo formando um belo cenário.

SER é outro poema que canta o movimento e a temporalidade, afirmando ser o homem “absolutamente múltiplo” e “relativamente uno”, sintagmas em franca antítese. Como tal, o poeta sempre procura novos rumos, “outra vida, outro poema/ outra palavra, alguma página/ o sentido”. Porém o arremate é triste, pois tudo que vê é a estabilidade, o estático, sob forma de linhas horizontais tais como os desejos que experiência.

IDEALISMO mantém interdiscursividade com o poema homônimo de Manuel Bandeira, mas é um contraponto para ele e dele. É ao fim um anti-idealismo, pois bem assevera: “minha sina/ é a de escrever/ até o ponto final”. Este ponto final, parece-nos, é tanto o sinal de escrita como a morte. E arremata: “o ponto final é meu mundo”. Em suma, quer viver a concretude, e, para tal, basta o instante.

Esta concretude se acha presente em EU, ELA E A CIDADE, que põe claramente: “o amor é feito de instantes gastos”. Gastos para darem lugar a novos instantes. “(…) Como um mar/ Num indo e vindo infinito”, aqui trazendo à baila uma bela música de Lulu Santos, Zen Surfismo, que é uma espécie de amálgama com Zen Budismo, por troca de um fone [b] pelo fone [s]. A propósito, vem a calhar a comparação, pois as ondas do mar e tudo mais mostram que nada é num momento o que já fora. Foge, porém, a nosso escopo fazer as devidas comparações deste ir e vir infinito que a atividade de fazer surfe evoca. Nada, porém, nos impede de mostrar que estes efluxos e influxos de que trata sob diversas maneiras o poeta evoca o Oriente e o Budismo, religião, por sinal, prática, avessa a Metafísicas, pois o homem é finito demais, morre, nada descobre, bastando-lhe saber apenas a via óctupla: reto agir, reto pensar etc.

EXTERIORIDADES é um verdadeiro metapoema, em que assevera o poeta não ter poemas para dizer nada, faz poemas como catapultas, sendo repositórios de seus sentidos a memória e as palavras, quando os sentidos não cabem na memória, “e todas as partes secretas do instante”. Explica tudo no caráter evanescente da fugaz existência, seria almejar estabilidade: “se algo queres/ procure na vida,/ ou invente”. Conclui: “tenho uma alma repleta/ de silêncios”. O que foi posto se explica por si só. É bom lembrar outra vez o substantivo instante que é máquina de fabricar sentidos, em flash, em clarões, fugidios demais para durarem.

Alma não tem o sentido metafísico, significa apenas a parte mais profunda do ser do poeta. Pari passu com o poema supra é EXPERIÊNCIA INTERIOR. Recusa as curvas, as proporções geométricase os conceitos abstraídos da cor dos olhos, já que são entidades conceituais, extraperceptuais. Em conformidade com as diretrizes prepostas, estabelece querer o quarto e a cama “em desalinho/ os sulcos do tempo/ as conjunções do desejo”, afinal “o equilíbrio/ é uma ilusão horizontal”. Mais uma vez o autor investe contra as noções de ordem e estaticidade. E aparece o adjetivo horizontal, por oposição a vertical, abissal, profundo. Horizontal vem de um verbo grego horizô, “eu limito”, diga-se de passagem. O conceitual petrificador e unificador, aristotélico-tomista, é excomungado da ordem heraclítica que norteia o autor.

ENTRETANTOS é uma produção poemática que disjunge e conjuga em cada momento, por exemplo: “entre paredes e palavras/ poemas” (v. 1-2), “entre tempo e espaço/ a meta” (v.9-10), “entre o homem e o poeta/ as coisas” (v 15-16). Sempre o vir a ser entre polos colocados. Todavia, há uma razão primordial nos dois últimos versos, que não já oferecem dualidades, mas uma expressão quantificadora universal no penúltimo verso e a grande síntese: “entre todas as causas/ a vida”.

Deixamos claro uma coisa: parece-nos que a realidade-singular ou particular tem proeminência, como faz ver abertamente o poema SE EU SOUBESSE: “faria um poema imenso,/ mas a vida não nos dá tempo,/ nem quero cansar teu olhar”. Mais adiante: “por ora te trago este ligeiro,/ como a felicidade”. Poema na verdade “curto, curtinho para não demorar, que a vida tem pressa/ e a gente mais pressa em amar”. Entre o querer e o fazer impõe-se o fazer, entre o imenso e o curto, o poema curtinho, em que há um sufixo afetivo e com valor de grau, pois é diminutivo. Entre o tema e a confecção, o viver, a matéria-prima. Trata-se de um poema de dualidades, mas com resoluções sintéticas, lembrando-nos a música de Belchior, da qual nos vem à mente um excerto, mas a totalidade seria mais comparativa: “Não quero o que a alma pensa/ quero o que alma deseja/ arco-íris, anjos-rebeldes/ eu quero corpo, tenho pressa de viver”.

Afinal de que se faz o poema? “De ócio e cio”, afirma em ARTE POÉTICA, para, ao fim dizer: “o resto é vazio”, sendo o adjetivo plurissignificativo, podendo ser desde ausência de materialidade substancial até falta de qualquer outro sentido ou finalidade. Dizem os dois tercetos de ÚLTIMO INSTANTE com chave de ouro a rede dos poemas anteriores, sendo a morte a protagonista, mas reinventada dialeticamente pela vida: “humanar-se/ é toda a poesia numa máquina” e “mesmo a morte/ é reinvenção da vida”. Humanar-se é ser humano na infinitude de sentidos chamada poesia. Humanar-se não é humanizar-se, pois a língua bloqueia o que já existe no acervo. Humanizar-se é só “tornar-se humano”.

persona

Que significaria? Difícil dizer. Perguntamos com Heidegger: “para além do Dasein”? [estar-aí]. Continua o movimento? O nãoser prevalece sendo tudo PERSONA, “um baile de máscaras,/ tudo interpretação, na realidade,/ não há realidade” como afirma o poeta no poema em caixa-alta? Uma fic-ção (fingimento em latim, não no sentido de mentira, mas de aparências, daí a palavra fig-ura). A linguagem criadora parece ter tomado partido; daí a palavra PERSONA, de origem etrusca, com que o poema do poeta foi batizado. Daí também a palavra vernácula oriunda de persona, pessoa. Continuaríamos, então, sob formas microscópicas, mas sígnicas, em ação e reação ante alimentos. Um signo não precisa ser humano para sê-lo numa perspectiva peirceana.

O certo é que a reinvenção da vida, o Dasein, já não se põe na poemática de Cícero Almeida. O certo é que, sob a égide do empirismo inglês a partir de Berkeley e Hume, põe:

a) Ser é ser percebido, mas vai além,
b) Ser é perceber também.

Não há lugar para mera passividade. Tocar e ser tocado, é a pedra de toque na senda de Merleau-Ponty. O certo é que se acabou a ilusão da substancialidade.

Prof. Dr. Paulo Mosânio Teixeira Duarte
Professor Titular de Língua Portuguesa
da Universidade Federal do Ceará.

O HOMEM QUE RI

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     o risoImagem: Yue Minjun

   

     Ele riu.

     Ele riu e todos riram também. Riu da piada forçada e da gafe do amigo. Riu da gravata do chefe. Riu no brinde celebrado. Riu quando pedia a dose de uísque. Riu ali e todos o viram rir. Riu no galanteio da mulher solteira. Riu. Riu quando o primeiro amigo ficou bêbado. Riu do seu esbarro no estranho quando foi ao banheiro. Riu para a moça da mesa ao lado.

     Riu assim como riem as crianças gratuitas.

     Ele riu quando se despediu. Riu para o garçom quando pagou a conta.

     Riu quando abraçou os amigos

     Riu e todos riram também.

     E por isso ninguém entendeu quando, naquela mesma noite, apertou o gatilho contra a própria boca.

Renato Pessoa

POEMA DEITADO

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LempickaImagem: Tamara de Lempicka

As vezes meninas são mulheres,
umas querem ser homens,
outras são mais que homens
sem mesmo ter atração por outras mulheres.

As vezes sentem vontade de estar em relacionamentos,
sem querer estar em relacionamentos.
Precisam mesmo só dormir abraçadas,
ou viver noite regadas a álcool para encontrar certo alivio.
Alivio esse, que as encontram sóbrias
quando estas tem encontro marcado com a arte.

As vezes a paz é sentida por meio de toques habilidosos, lentos e doces.
Outras, a paz é queimar em chamas juntos.
No mergulhar em sensações quase desejam pertencer,
de sobressalto lembram o valor de pertencerem a si mesmas
e logo devolvem sonhos de volta ao vazio.

As vezes é preciso apenas descansar.
Por isso, deito aqui esse poema.

Cristina Braga

MOÇA COM A FLOR NA BOCA

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Italo

Espero que brotem as níveas flores do meu cabelo
E voem livres os pássaros de minha angústia
Assim, ao insípido amor, serei amigo e confidente

Tal os ateus frutos de uma árvore tamanha
Que o descaso me seja um surdino acaso
E, a presença, palavra do delírio frio e doente

No murcho peito de minha carne branca
Debruçará-me o último lírio primaveril
Por um lúcido protesto, eterno e sublime

Eis-me liberto, no sândalo de tuas ancas
Bêbado na vertigem da estirpe dos teus beijos
Outrora, o todo, ao silêncio do íntimo exprime.

Ítalo Oliveira

SOBRE O VAZIO

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mario a noite

Imagem: Caricatura do poeta Mário Gomes – Vicente Freitas

Um louco exala poesia pelo caminho
passos descontraídos, vãos pelas calçadas
Donde brotam flores de dores embriagadas
A cidade dorme em macios espinhos
Com cheiro de fuzil e Dior
Seus olhares de distância
Olham o louco, só ouvem seu suor
Só enxergam sua cor
veem tons cinzas das poeiras que nele se perderam,
desconfiam das ruas nele entranhadas
O louco transpira imunidade
nas ruas tão cheias de sentido
Tão vazias de significados
E voa na lucidez de pássaro moribundo.
A cidade respira fundo
Ouro, éter, gasolina.
O louco embriagado
Come cacos de pessoas, sóis e flores.
Num dia, agoniza na praça ao léu
Até finalmente morrer de amores
De leveza, de pesar, de ausências, de dores…
A cidade indiferente trafega.
O olhar e o que ele nega
É Natal! É Ano Novo!
E o amor é um mero detalhe
Na cidade iluminada.

Djania Beserra

ALBUM DE FAMÍLIA

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cris

    As crianças brincavam na varanda e fazia sol. Os cabelos da Eduarda ficavam lindos com reluzentes tons avermelhados. A menina com cara de arteira me fazia ter saudade dos meus oito anos, feito o poema de Casimiro de Abreu.

    Na verdade, por mais que houvesse o que sentir saudade, também existia do que ter medo. Eduarda era minha sobrinha predileta, não porque eu era uma tia má, sem sensibilidade para com meus outros sobrinhos.

    Acho que tinha a ver com ler minha mãe nos trejeitos dela ou fosse somente pelo olhar audaz, o Afonso com seus cinco era tão calminho que eu lia livros e mais livros e ele ficava quietinho, nem se mexia só me dando raramente uns sorrisinhos tímidos. Era definitivamente um garoto adorável com os olhos do meu irmão.

   Olhar bem atenciosamente para crianças é como ver álbuns de família em movimento, o ruim é que quase ninguém percebe.

    Eu que escolhi não ser mãe fui abençoada com sobrinhos e afilhados, ganhei saia puxada aos fins de semana, risadas por toda a casa nas tardes de sábado, lanchinhos e cinemas as terças. Tem dias que consigo pegar na escola e de recompensa já noto que uns ouvem Rock, talvez para me agradar ou talvez porque verdadeiramente possuem essência.

    A Isadora, minha afilhada que já tem seus dezesseis me perguntou um dia desses o que eu faria daqui a alguns anos sozinha, me disse que o Einstein, meu cachorro não aguentará muito tempo e que eu devia aquietar meu coração enquanto ainda sustento beleza e juventude.

    Eu sorri enquanto pensava que ela não sabe que eu sou feliz a minha maneira na presença de todos e até mesmo quando eles vão recolhendo os brinquedos, os livros, o barulho, os casacos

     e, saem fechando com toda força a porta.

Cristina Braga

NEM SEI

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imagesImagem: “A Woman in the Sun” – Edward Hopper 1961

Nem sei
Onde as portas
Esconderam suas cicatrizes

Nem sei
Onde moram
Os que foram excluídos dos banquetes

Nem sei
Onde o rio sujo
Despejou as suas dores
Tampouco
Onde as moedas roubadas
Caíram e espalharam corrupção

Sei
Como alma intranquila
Que transito no planeta azul
Onde o céu cinzento
Cheira a fumaça
E os aviões
Espalham bombas
Às cinco da manhã

Sei
Como alma intranquila
Que no fundo do porão
As sombras querem luz
E as vozes que gritam
Morrem do silêncio dos omissos

Nem sei
Como alma intranquila
Se isso, é decerto, o deserto
Que mora perto de mim.

Rosa Morena